“A mais bela profissão de fé é aquela que, como um raio, dissipa as trevas da sua alma.” (Padre Pio de Pietrelcina)

A Pedra sobre a qual a Igreja se fundamenta neste mundo

O estudo abaixo é bem fundamentado e bastante esclarecedor. Leitura recomendada para todos aqueles que desejam uma instrução segura a respeito deste tema fascinante e fundamental. Trata-se de uma discussão recorrente, e por isso mesmo vale a pena conhecer a verdade dos fatos.

Baseado em texto de Karl Keating

O argumento a seguir representa uma das alegações usuais dos “evangélicos”, quando tentam argumentar que a “Pedra” citada por Jesus em Mateus 16, 18 não seria o Apóstolo Pedro, mas sim o próprio Jesus, uma vez que as Sagradas Escrituras, em outras passagens, identificam o Cristo como “Rocha” e a “Pedra Angular”.

De fato existem passagens bíblicas em que os termos “pedra” e “rocha” realmente se referem a Jesus. Mas é claro que isso não significa que todas as vezes que a Bíblia usa essas palavras está se referindo exclusivamente a Jesus.

Um exemplo: o próprio Cristo se proclamou a “Luz do Mundo” (Jo 8, 12). Mas Ele disse aos Apóstolos que também eles deveriam ser “Luz do Mundo” (Mt 5, 13). Veja que nem todas as vezes que a Bíblia fala em luz, se refere a Jesus. Da mesma maneira, é óbvio que nem todas as vezes que fala em pedra está se referindo a Jesus. Poderíamos citar muitos outros exemplos como este, mas parece-nos que já ficou claro que o fato de Jesus ser chamado de “Pedra Angular” é uma coisa, e o fato de o Apóstolo Simão bar Jonas ter seu nome mudado para Pedro (Pedra) é outra coisa.

Além da passagem de Mateus 16,18, em que a “pedra” referida, naquele caso, evidentemente é Pedro, temos também Isaías 51, 1-2: nesta passagem, a pedra é Abraão. Também em 1Pedro 2, 4-5, as Escrituras falam das “pedras vivas”, que, neste caso, são Jesus e também os cristãos fiéis.

O fato de Jesus aplicar a Simão Filho de Jonas um título que a Bíblia aplica também a Jesus, demonstra a intenção do Senhor em fazer de Simão um representante seu na Terra, assim como acontecera antes com Abraão. Também este teve seu nome mudado (antes era Abrão) quando foi escolhido para conduzir o povo de Deus na Terra, e também este foi comparado a uma pedra ou rocha, exatamente como Pedro. E Jesus Cristo confirmou explicitamente sua intenção ao entregar a autoridade a Pedro, para ligar e desligar na Terra o que seria ligado e desligado no Céu!

E além de tudo isso, convenhamos: se Jesus estivesse naquele momento falando de si mesmo, que era Ele mesmo a Pedra, logicamente diria “Eu sou a Pedra”, assim como disse “Eu sou a Luz do Mundo”, “Eu sou o Pão da Vida”, “Eu sou a Ressurreição e a Vida” ou “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.

O Senhor Jesus Cristo, sem dúvida alguma, elevou Pedro como um “pai” na família dos cristãos (Is 22,21), para guiar o seu rebanho. E Pedro é mais uma vez confirmado como o pastor terreno das ovelhas de Cristo, logo após a Ressurreição do Senhor. Em João 21, 15-17, por três vezes Jesus pergunta a Pedro se este o amava, e por três vezes Pedro reafirma seu amor e dedicação inabaláveis. Então o Salvador, à véspera de deixar seus discípulos, confia a Pedro a guarda do seu rebanho, e é importante entender que, naquele momento, confiava-lhe o cuidado de toda a cristandade, fazendo questão de entregar a ele a guarda dos “cordeiros” e também das “ovelhas. “Apascenta os meus cordeiros”, repete o Senhor duas vezes; e à terceira, diz: “Apascenta as minhas ovelhas”. “Apascentar” significa cuidar, conduzir, guiar, assumir a responsabilidade pelo rebanho; neste caso, é receber do Divino Proprietário a autoridade sobre o seu rebanho. Apascentar os cordeiros e as ovelhas é, portanto, governar com autoridade a Igreja de Cristo; é ser o condutor: é ter o Primado.

Como se não bastasse, além de tudo isso, o contexto do Novo Testamento demonstra que Pedro tinha a palavra final nos assuntos da Igreja primitiva, em diversas passagens:

# É Pedro quem propõe a eleição de um discípulo para ocupar o lugar de Judas e completar o Colégio dos Doze (At. 1, 15-22);

# É Pedro o primeiro que prega o Evangelho aos judeus no dia de Pentecostes (At. 2, 14; 3, 16);

# É Pedro que, inspirado por Deus, recebe na Igreja os primeiros gentios (At. 10, 1);

# Pedro realiza visitas pastorais às igrejas (At. 9, 32);

# No Concílio de Jerusalém, temos a prova definitiva: é Pedro quem põe um fim à longa discussão que ali se travava, decidindo ele que não se deveria impor a circuncisão aos pagãos convertidos, e ninguém ousou opor-se à sua decisão (At. 15, 7-12).

E esta autoridade de Pedro, assim como a de todos os Apóstolos, era e continua sendo transmitida de um homem para outro, sendo eleitos os novos sucessores pelo próprio Colegiado dos Apóstolos, através dos tempos. No caso de Pedro, as Chaves do Reino dos Céus, entregues por Jesus Cristo, vêm sendo transmitidas, nesses dois mil anos de história, através do papado. Dizer que a autoridade de Pedro morreu com ele seria o mesmo que renegar a Promessa do próprio Senhor Jesus Cristo: “Ide e fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado. Eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém”.

Se o Senhor prometeu que continuaria com a sua Igreja até o fim do mundo, também a autoridade que ele concedeu à sua Igreja permanece, até o fim dos tempos. Esta é a doutrina católica. Esta é a Palavra de Deus, segundo as Sagradas Escrituras. Esta é a Tradição Cristã, de dois mil anos de história. Quem pregar o contrário, seja considerado anátema. Porque, “de fato, não existem ‘dois evangelhos’: existem apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós, e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas ainda que alguém, nós ou um anjo baixado do céu, vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que seja anátema” (Gálatas 1, 6-8). Graças a Deus.

Como os fatos que apresentamos até aqui, quando analisados de perto são inquestionáveis, numa tentativa desesperada de negar a realidade do Primado de Pedro alguns outros chegaram a criar uma outra interpretação (já bastante conhecida e manjada), que podemos encontrar em diversos websites e redes sociais da internet:

Argumento “evangélico”: “Sim, a pedra era Pedro, mas em grego a palavra para pedra grande é ‘petra’, que significa uma rocha grande e maciça. A palavra usada como nome para Simão é ‘petros’, que significa uma pedra pequena, uma pedrinha.”

De fato, o argumento é tão fraco e desprovido de sentido que até dificulta a resposta: o difícil é saber por onde começar a desmantelá-lo, de tão absurdo! E vemos o quanto são desunidas as denominações “evangélicas”, e como a única intenção que possuem em comum é negar o catolicismo: se o Evangelho de Mateus não está se referindo a Pedro, mas ao próprio Jesus Cristo, então está chamando o Senhor de “pedrinha”!? – Em outras palavras, uma “igreja evangélica” acaba ridicularizando a teoria da outra, na tentativa de negar o catolicismo. Se houvesse mesmo essa alegada diferença nas expressões em grego (que não existe, como veremos), isto só serviria como uma comprovação a mais de que Jesus não estava se referindo a si mesmo nessa frase!

Porém, como sabem os conhecedores do grego antigo (não precisa ser católico), as palavras petros e petra eram sinônimos no grego do primeiro século. Essa diferença de significado pode ter existido séculos antes de Cristo, mas essa distinção já havia desaparecido no tempo em que o Evangelho de Mateus foi traduzido para o grego. Como podemos ter absoluta certeza disso? Simples: a diferença de significados existe apenas no grego ático, e o Novo Testamento foi escrito em grego koiné, um dialeto bastante diferente. No grego koiné, tanto petros quanto petra significam “pedra” ou “rocha”. Se Jesus quisesse chamar Simão de “pedrinha”, teria usado o termo lithos. Estudiosos das igrejas protestantes históricas reconhecem este fato: podemos citar, por exemplo, a respeitável obra de D. A. Carson e Frank E. Gaebelein, “The Expositors Bible Commentary” (veja aqui).

Ignorando a explicação, insiste o “evangélico”: “Os católicos pensam que Jesus comparava Pedro à rocha. Na verdade, é o contrário. Ele os contrastava: de um lado, a rocha sobre a qual a Igreja seria construída, o próprio Jesus (‘Petra’). De outro, esta mera pedrinha (‘Petros’). Jesus queria dizer que ele mesmo seria o fundamento da Igreja, e que Simão não estava nem de longe qualificado para tanto”

A criatividade humana realmente não tem limites, e é impressionante perceber do que a má vontade é capaz: os “evangélicos” adoram interpretar a Bíblia literalmente, em tudo que não faz sentido, como no caso da proibição às imagens, que já estudamos aqui, e em diversos outros casos. Mas quando é para renegar o óbvio, o evidente, o explícito, aí eles vão procurar interpretações desnecessariamente complicadas a partir do texto em grego.

Com certeza é interessante estudar os textos sagrados no original. E, por isso mesmo, não podemos nos esquecer que a origem dos Evangelhos não está na língua grega. As narrativas que possuímos hoje foram traduzidas do aramaico, já que esta era a língua falada por Jesus, pelos Apóstolos e por todos os judeus da Palestina. Era essa a língua corrente da região, e sabemos com certeza que Jesus falava aramaico, também, devido a algumas de suas palavras que foram preservadas nos Evangelhos, traduzidas para o grego, como em Mt 27, 46, onde Ele diz, na cruz: “Eli, Eli, Lama Sabachtani”. Isto é aramaico, e significa, “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”.

Os livros do NT foram escritos em grego porque não visavam apenas os cristãos da Palestina, mas também os de outros lugares, como Roma, Alexandria e Antioquia, onde o aramaico não era falado, e é por isso que também os Evangelhos foram traduzidos. Muito importante: nas epístolas gregas de Paulo (por 4 vezes em Gálatas e outras 4 vezes em 1Coríntios), preservou-se a forma aramaica do novo nome de Simão. Em nossas Bíblias, aparece como Cefas. Isto não é grego, mas sim uma transliteração do aramaico Kepha (traduzido por Kephas na forma helenística).

Então, sabemos o nome que Cristo realmente deu a Simão, na língua em que eles falavam. Seu nome era Simão, mas o Senhor lhe confere um novo nome, como fizera antes com Jacó e com Abrão, ao entregar-lhes suas missões fundamentais na História da Salvação. Foi assim que o Senhor chamou a Simão, mudando seu nome, por ter sido ele o primeiro a confessar que Jesus era o Cristo: Kepha. E o que significa Kepha, em aramaico? Significa rocha, pedra grande e maciça: é este o mesmo sentido de petra, em grego.

Já a palavra aramaica para uma pequena pedra é evna. O que Jesus realmente disse a Simão em Mt 16, 18 foi: “A partir de agora tu és Rocha e sobre esta Rocha construirei a minha Igreja”. – O que é óbvio, afinal, como construir a Igreja sobre uma pedrinha?

Quando se conhece o que Jesus disse em aramaico, percebe-se que ele comparava Simão à uma rocha; não estava comparando a si mesmo com o Apóstolo, de modo algum; isso seria absurdo. Podemos ver esta realidade, vividamente, em algumas versões modernas e mais apuradas da Bíblia em língua inglesa, nas quais este versículo é assim traduzido: “You are Rock, and upon this rock I will build my Church”. – Já em francês, sempre se usou apenas o termo pierre, tanto para o novo nome de Simão quanto para rocha.

O mais óbvio, claro e evidente: o fato concreto é que não é preciso se perder em estudos linguísticos complexos, nem em traduções de línguas orientais difíceis para entender a questão. Além de toda evidência gramatical, a própria estrutura da narração de Mt 16 15-19 não permite uma diminuição do papel de Pedro na Igreja, de modo algum. Basta observar a forma na qual se estruturou o texto. Teria algum sentido Jesus dizer: “Bendito és tu, Simão, pois não foi a carne nem o sangue que te revelaram este Mistério, mas meu Pai, que está nos Céus. Por isto eu te digo: és uma pedrinha insignificante, sem valor, e sobre a Rocha, que sou eu mesmo, edificarei a minha Igreja… Eu te darei as chaves do Reino dos Céus, e tudo o que ligares na Terra será ligado no Céu, e tudo o que desligares na Terra será desligado no Céu”…

Essa tradução fica até cômica, não é mesmo? Somente um indivíduo dotado de muita, mas muita má vontade para aceitar uma insanidade dessas. A verdade, que está na Escritura para quem quiser ver, é que Jesus abençoa Pedro triplamente, inclusive com o dom das Chaves. Jesus coloca Pedro como uma forma de comandante ou primeiro ministro abaixo do Rei dos reis, dando-lhe as chaves do Reino. Como em Is 22, 22, os reis, no AT, apontavam um comandante para os servir em posição de grande autoridade, para governar sobre os habitantes do reino. Jesus cita quase que verbalmente esta passagem de Isaías, o que torna claríssimo aquilo que Ele tinha em mente.


Numa útlima tentativa de argumentar, diz o “evangélico”:
“Então, se ‘kepha’ significa o mesmo que ‘petra’, porque a versão grega não traz ‘Tu és Petra’? Por quê, para o novo nome de Simão, Mateus usa o grego ‘Petros’?”

A resposta é simples: o tradutor de Mateus teve que fazer isso, simplesmente porque não teve escolha. Grego e aramaico possuem diferentes estruturas gramaticais: em aramaico, pode-se usar somente kepha na passagem de Mt 16, 18. Em grego, encontramos um problema: nesta língua, os substantivos possuem terminações diferentes para cada gênero. Em grego, existem substantivos femininos, masculinos e neutros. A palavra grega petra é feminina. Pode-se usá-la na segunda parte do texto, sem problemas. Mas não se pode usá-la para traduzir o novo nome de Simão, somente porque ele é homem, e não uma mulher. Ao traduzir para o grego, não seria possível usar um nome feminino para um homem. Foi preciso “masculinizar” a terminação do nome. Fazendo-o, surgiu o termo Petros, da mesma maneira que no português não dizemos “Apóstolo Pedra”, já que o substantivo pedra é feminino. Também em português foi preciso criar o masculino de pedra, que deu em “Pedro”.

Observação: no português, ‘pedra’ pode ser usado tanto para uma estrutura gigantesca como a Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, quanto para uma pequena pedra que atiramos no rio para formar ondas. Por certo, na tradução do aramaico para o grego perdeu-se parte do jogo de palavras usado pelo Senhor, assim como na tradução para o português.

Fonte: Voz da Igreja

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